Plantador de Esperança: agricultor não esconde a alegria ao ver o seu canteiro outra vez florido depois da enchente que atingiu a região do Vale. Fonte: Diário Catarinense de 15/01/2012
Floresceu outra vez. Cinco meses depois de inundado pelas enchentes, no Vale do Itajaí, o roseiral de Tarcísio Nosato está exuberante. Em setembro, o cenário era arrasador. Os canteiros foram devastados quando as águas do Rio Itajaí do Oeste subiram três metros e também atingiram as ruas do Centro de Laurentino, cidade com 6 mil habitantes.
“Volto ao jardim”, escreve o compositor Agenor de Oliveira, o mestre Cartola, em As Rosas Não Falam. Voltamos ao roseiral. A plantação, antes deitada pela correnteza, ergueu-se. Está florido. Dos 10 mil metros quadrados de terras, saem 70 mil mudas, a maioria vendida para produtores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Campo de flores. De uma roseira brota, em média, oito botões. Híbridas por causa dos enxertos, as plantas dão rosas em oito cores. Nosato vê na floração uma beleza maior.
Em setembro, durante três dias e três noites, a bordo do Gênesis, seu pequeno barco de fibra, navegou sobre asfalto, pontes e telhados no socorro aos moradores isolados pelas águas no município que decretou calamidade pública.
Na época, o agricultor professou:
– Só o tempo para retirar os espinhos deixados pela enchente.
E foi mesmo assim. Por dois meses, o homem que ajudou até a retirar um corpo que estava há três dias de dentro de uma casa, guardou imagens do medo e desespero das pessoas.
– Como que eu ia deixar o povo pendurado no telhado, doente, precisando de insulina, criança sem leite? Só que na hora a gente não pensa no que está acontecendo, depois é que tudo começa a vir na cabeça da gente – conta.
Nosato nasceu em Laurentino. Usou com competência o conhecimento da geografia das ruas, do curso do rio, do trajeto da rodovia. Ora navegava sobre o asfalto, ora sobre o terreno das casas. Mesmo com o casco de Gênesis raspando em pedras, muros e árvores.
“Queixo-me às rosas”, diz um dos versos da música de Cartola sempre cantada em toda roda que se preze. Nosato fala com elas. E não acha bobagem.
– Eu prefiro a de cor vermelha, dizem que é a do amor. Mas reconheço que cada uma tem a sua beleza. Por isso gosto de dizer: como és linda, como teu perfume é bom, como tua cor é diferente, independente da nuance.
Homenagens e mensagens emocionadas em reconhecimento por ato de bravura
Nosato é casado e tem uma filha. Em uma das paredes da casa, a 300 metros do Centro da cidade, uma homenagem feita pelas mulheres da casa: um banner com as reportagens e mensagens recebidas pela internet trazendo elogios de pessoas de vários estados emocionadas com a solidariedade demonstrada. O texto oficial é o da prefeitura, um reconhecimento pela bravura.
Nosato acha que seu roseiral se compara à vida. Uma época estava feio, cinza, cheirando a barro carregado das encostas. Mas o tempo, aquele mesmo que retira espinhos, devolveu-lhe a beleza em cor e perfume. Com toda licença ao mestre Cartola, desta vez sem terminar o verão.
ÂNGELA BASTOS | Laurentino / angela.bastos@diario.com.br
Muito inda essa história!!!
ResponderExcluir